A Carroça de Histórias Ambulantes é uma banca itinerante de escambo, também chamada de ‘A Carroça’, que atuou nas ruas da cidade de Porto Alegre entre meados de 2007 e dezembro de 2019, oferecendo aos transeuntes uma coleção de produtos singulares gerados em parceria com seus colaboradores espontâneos. A moeda necessária para levar o item desejado era a disponibilidade do interlocutor de contar uma história à/ao atendente de plantão. Os relatos recebidos retornavam ao acervo da Carroça como novos produtos, gerando uma microeconomia poética, que fez circular fragmentos sensíveis, memórias e ficções anônimas.
Detalhes:
– Ao longo destes treze anos de trabalho de rua, coleta de fragmentos escritos, de histórias e encontros férteis, a Carroça gerou ao seu redor uma rede aberta e multidisciplinar de apoios e colaborações. O trabalho voluntário dessas pessoas – a quem carinhosamente chamamos de “carroseres” – deu sustentação a boa parte das atividades da banca, sendo responsável por todas as atividades do projeto, que vão desde limpar e empurrar a Carroça, levá-la e trazê-la do estacionamento ao parque e vice-versa, encher pneus murchos, consertar rodas estragadas, montar e desmontar os produtos exibidos para venda a cada sessão, acolher e conversar com clientes, escutar suas histórias e seus silêncios, além de documentar em textos, sons e imagens o cotidiano das saídas. Também foi essa equipe que leu, classificou, digitalizou, catalogou, embalou e etiquetou os textos e imagens recebidos na rua.
–Na companhia uns dos outros, compartilhamos as inquietações que os encontros produzem, pensamos estratégias de trabalho, preparamos e operacionalizamos a divulgação das atividades da banca, desdobramos reflexões teóricas em torno do processo e, acima de tudo, inventamos juntos um chão por onde andar.
A chegada da pandemia teve como primeiro efeito nos retirar da rua e colocar todo o cotidiano no parque da Redenção (território onde mantivemos um ponto fixo entre 2013 e 2019). Ao longo dos anos pandêmicos, sofremos muitos choques, e perdemos pontos importantes da rede de sustentação do trabalho. Não sem um profundo trabalho de luto, temos nos debruçado sobre o material de memória do próprio projeto através do revisitar dos documentos e do enorme acervo de escritas, fotografias, vídeos e depoimentos que trazemos na bagagem como herança de nossa atuação na cidade. Este trabalho está sendo compartilhado com a equipe do Museu de Memórias (im)possíveis do Instituto APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre), que está acolhendo e catalogando o acervo de memória do projeto de forma a promover a sua salvaguarda.
Concepção e coordenação geral do projeto: Ana Flávia Baldisserotto
Este projeto contou com o apoio do Atelier Livre Xico Stockinger da Prefeitura de Porto Alegre desde entre 2012 e 2020.